14.5.11

BIOGRAFIA


Leandro Soares



Leandro Soares da Costa é gaúcho, tem 47 anos , Piloto de Linha Aérea com boa experiência como comandante e instrutor (aviação comercial e executiva) , já tendo passado pela Vasp, onde voava aeronaves widebody. Atualmente é Comandante na Avianca Brasil. 

Trabalhos:




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1. O PASSAGEIRO, ESSE "SER" ESTRANHO!

Meus amigos, o dia a dia, na aviação, é de uma total falta de rotina... Ouvem-se coisas inacreditáveis!
Já vi passageiro entrando no avião e perguntando para a comissária: -"E aí, não vamos cair hoje, não é?". Naturalmente que isso é uma defesa natural do passageiro que tem medo de voar. Mas, é surpreendentemente atroz! Será que se esse passageiro fosse passar por uma cirurgia cardíaca, tendo sua vida nas mãos do cirurgião (assim como no avião ele tem sua vida na mão da tripulação), será que ele faria gracejos como: -"E aí, vai morrer gente na sua mesa de operação, hoje?". Seria, para dizer o mínimo, uma tremenda de uma descortesia com o profissional que está alí, preparadíssimo para cuidar bem dele...

Não sei qual a percentagem de passageiros que tenham medo de voar. Acredito que deva ser alta, na faixa de uns 70%. E isso acrescido ao fato do passageiro estar em um ambiente que lhe é estranho, e sobre o qual ele não tem nenhum poder, leva a comportamentos estranhíssimos!

Quando encontra conhecidos a bordo, durante o embarque, o passageiro sempre exprime enorme satisfação em ver um rosto conhecido. Cumprimentam-se efusivamente, mesmo que mal-e-mal se conheçam. Se o encontro fosse numa calçada, talvez até se evitassem, ou se ignorassem mutuamente. Mas, a bordo, é uma conexão com o mundo que conhecem, é um pé em terra firme.

Quando começa o speech de segurança dos comissários, a maioria segue lendo alguma coisa que nada tem a ver com a situação. Já vi alguns segurando revistas de cabeça para baixo, obviamente tentando mostrar uma tranquilidade que não estavam sentindo. Ora bolas, se estão se sentindo inseguros, deveriam prestar atenção redobrada às informações de segurança! Aliás, aqui cabe um comentário essencial sobre os comissários. Eles não estão à bordo para lhes servir lanche! Eles estão à bordo para zelar pela sua segurança! Para salvar sua vida no caso (improvável, felizmente) de um acidente. Se eles servissem apenas para servir lanches, com certeza absoluta já teriam sido extintos pela busca de lucro (necessário) das companhias aéreas, e cada passageiro receberia uma caixinha de lanche e uma garrafinha de suco no momento do check-in. Como os comissários são essenciais à bordo, e são essenciais única e exclusivamente por questões de segurança, só por isso eles são utilizados, nos momentos de folga de sua ocupação principal que é salvar a vida dos passageiros (e muito felizmente esses momentos de não-atuação em sua verdadeira função será a totalidade da carreira da maioria dos comissários!), nesses momentos de "ócio" de sua função primordial eles serão utilizados para servir lanches aos passageiros. Não são garçons e garçonetes, e sim são os responsáveis pela vida dos passageiros!

Fico pensando quantos passageiros que já morreram por não saber o que fazer numa emergência, num acidente... E por não seguir cuidados básicos, claramente indicados nos speechs de bordo. Nos recentes acontecimentos de passageiros feridos por turbulência, que tanta manchete geraram nos órgãos de imprensa não-especializada, eu diria o seguinte: Foi até pouco! Pois todos os passageiros machucados estavam sentados e sem os cintos de segurança passados. Caramba, o que os comissários haviam acabado de anunciar no speech de segurança? -"Quando sentados, permaneçam com os cintos passados!" Mas, ninguém ouve speech, e quando ouve, acha que é bobagem. A estes, um recado: Já ocorreram MORTES causada por turbulência. A aeronave entrou numa turbulência severa, e o passageiro ficou batendo no interior da aeronave igual pipoca estourando na pipoqueira, e momentos depois a aeronave pousou em segurança, intacta, mas com um passageiro burro, que achava que colocar o cinto era supérfluo, que achava que estava acima das regras, morto a bordo. Isso sem contar os outros passageiros que ele machucou, em seu vôo acrobático pelo interior da cabine de passageiros! Pessoas inocentes e seguidoras das normas se machucam com a inobservância das regras por parte de OUTROS... Isso é o mais triste da história! Por isso que cabe também aos passageiros fiscalizarem os seus "colegas de cabine", pois o que seu vizinho de assento fizer de errado pode causar danos a você!

Conheci um Coronel da FAB que, quando viajava em companhias comerciais, tinha o hábito de ficar em pé, observando os passageiros, durante o speech dos comissários. Quem não estivesse atento, ele mandava prestar atenção! Hoje em dia, em tempos do s... E, mesmo com o speech pedindo que deixem o corredor livre, o que fazem alguns: Ficam em pé no corredor, conversando com outros passageiros, muitas vezes até com aqueles que mal conhecem. É novamente a tentativa de parecer estar à vontade, quando não está. Pois, num restaurante, com certeza não estariam em pé em corredores estreitos entre as mesas, atrapalhando os garçons. Porque, então, fazem isso num avião? Há também os bem intencionados que querem ajudar, mas por não conhecerem os detalhes, acabam atrapalhando. Querem ver um exemplo? O passageiro que senta na poltrona do corredor, e, querendo ajudar, empilha as bandejas de refeição de seus dois colegas (da poltrona do meio e da poltrona da janela) e entrega ao comissário assim está dando trabalho em dobro ao comissário. Pois as bandejas normalmente não cabem nos trolleys empilhadas. O comissário terá de separá-las uma à uma, precisando das duas mãos para isso, demorando mais na tarefa.

Ao passo de que se cada passageiro desse individualmente sua bandeja, o comissário facilmente a colocará no trilho do trolley adequado a isso, usando uma mão, enquanto se apóia no trolley com a outra. Claro que é louvável a intenção de ajudar, por isso é ainda mais importante avisar que isso atrapalha... Ao passageiro que quer ajudar, a melhor coisa a fazer é não atrapalhar...

Uma coisa especialmente incômoda, e que gera muito problema, é que todo brasileiro se acha especialista em futebol, política e avião... E, nesse "achismo", muitas vezes coloca em risco até a segurança do vôo. Como tem a pretensão de se fazer por parecer conhecedor, dá palpites sem nenhuma base sobre situações diversas, principalmente sobre atrasos. Sempre acha que é problema de manutenção, e não tem pudor nenhum em comentar sobre isso com os outros passageiros. Quando atrasa o vôo, mesmo que o piloto avise em speech que o motivo é o fechamento do aeroporto por questões meteorológicas, ou a demora de atendimento no check-in por queda de sistema de software das instalações de terra, o "achista" sempre acha que a aeronave está com problemas, ou, a mais engraçada das "teorias de conspiração", acha que a aeronave está demorando para esperar para ver se chega mais algum passageiro para encher mais a aeronave... Ora, mal sabem esses senhores sobre o TAMANHO DO CUSTO de uma aeronave parada, pousada, sem render, e não servindo ao conseguinte da malha aérea... Quando há problemas técnicos, a coisa é mais cômica ainda.

Certa vez o piloto fez um speech dizendo que haveria um atraso devido à manutenção. Um passageiro exigiu saber do que se tratava, mandou o recado para o comandante pela comissária. O comandante mandou dizer que era um problema técnico, e o passageiro EXIGIU falar com o comandante. Tudo bem, pedido aceito, o passageiro chegou grosseiramente no cockpit, aeronave pousada, exigindo que o comandante dissesse exatamente o que havia de errado. O comandante falou: -"Ok, nós estamos com o EMUX em single-channel, o senhor acha que dá para decolar assim? Quer dar uma conferida no MEL?" Quando o passageiro percebeu o TAMANHO DO RIDÍCULO que estava passando, por não saber absolutamente do que se trata um EMUX, e muito menor saber que o EMUX tinha mais de um canal, voltou quietinho pro lugar, e ficou quieto pro resto do vôo.

E o desembarque? Ah, o desembarque... A fase da viagem em que mais se demonstra a desinformação...

Certa vez eu estava de passageiro chegando em Brasília. A aeronave parou na taxyway, aguardando posição de estacionamento. 90% dos passageiros levantaram, pegaram a bagagem, e ficaram em pé no corredor. Em menos de 15 segundos, o comandante fez um speech dizendo que estava aguardando a desocupação do box designado, e que em seguida iriam reiniciar o movimento, pelo que pedia para todos ficarem sentados com os cintos passados. Uma passageira, que estava em pé no corredor ao meu lado, esbarrando sua bagagem de mão sem parar na minha cabeça, grosseiramente falou: -"Mas que irresponsabilidade, porque ele não avisou logo, tá nos fazendo de palhaços!". Não me contive e perguntei a ela, falando alto para que muitos ouvissem, se ela não havia notado que o aviso de cintos ainda estava aceso. Ela disse algo como: -"Hã? Ah! É, né?" e sentou. Muitos riram, e todos sentaram. Será que ninguém ouviu o speech dos comissários, mandando todos se manterem sentados, e com o cintos passados, até a parada total da aeronave e o corte dos motores, e o apagamento do aviso de atar cintos?!??!!?!?

E, mesmo quando a aeronave para, os motores são cortados, e o aviso de atar cintos é desligado, nunca entendi a agonia da maioria em ficar em pé no corredor, aguardando por vezes até 2 minutos para o acoplamento do finger e a abertura da porta... Normalmente se expremendo, batendo as bolsas de mãos nas cabeças dos civilizados que continuam sentados... Ora, por mais que corram, no mínimo vão esperar as bagagens por muito tempo!

Já sugeri que se colocasse no sistema de som da aeronave aquela música do Gilberto Gil, cuja letra diz que: -"...pelo menos aprendi a ser o último a sair do avião..." para ver se "cai a ficha" do pessoal... Já vi senhoras de idade, mulheres grávidas, crianças, se expremendo no corredor... E no final todos vão sair ao mesmo tempo! Mesmo os que estão confortavelmente sentados...
É, o passageiro é, reamente, um ser muito estranho...
tristemente disseminado uso do "politicamente correto", essa atitude desse saudoso coronel com certeza seria criticada, e taxada de arrogante. Mas, é algo que todos os que realmente entendem de segurança de vôo aplaudiam! E sentem saudades!

Nessa tarefa secundária dos comissários, que é servir o passageiro (pois, repito, a tarefa principal deles é zelar pela segurança e pela VIDA dos passageiros), há um período de tempo normalmente curto para as tarefas a excutar: Passar com o carrinho de um extremo ao outro do avião, servir normalmente mais de 100 pessoas em curtíssimo tempo, fazer repasse de bebidas, recolher tudo, servir café, recolher o lixo sobrante, organizar tudo, fazer uma contagem do material sobrante, guardar, fechar, lacrar, emitir relatório.


 


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2. MÁXIMAS DA AVIAÇÃO

Uma aeronave comercial é aquela capaz de se sustentar no ar aerodinâmica e economicamente.
William Stout, desenhista do Ford Tri-Motor

Quando o peso dos papéis do projeto é igual ao peso de decolagem, só aí é que você pode sair voando.
Donald Douglas, presidente da Douglas Aircraft

Olhe, decida, ataque, repita.
Erich Hartmann, Luftwaffe, maior ás na Segunda Guerra Mundial.

O que me assusta ao voar de avião é imaginar que tudo que está dentro dele foi colocado pelas empresas que ofereceram o menor preço.
Antônio Delfim Netto

Não quero monitores na cabine. Quero pilotos. Nossa filosofia é que pilotos estão no comando do avião. Somos uma empresa aérea totalmente anti-automação.
Greg Crum, Piloto-Chefe, Southwest Airlines

Cala-te, gringo!
Aviador, reagindo à gravação de alerta do GPWS que soou na cabine de comando, segundos antes do 747 que pilotava colidir com o solo a quilômetros da pista do aeroporto de Barajas, Madrid, matando todos os ocupantes.
GPWS significa Ground Proximity Warning System - Alarme, em inglês, que pede para o piloto subir. O que será que o Piloto-chef da Southwest (da frase anterior) achou disso então?
Se o piloto sobrevive ao acidente, você nunca saberá de fato o que aconteceu.
Doug Jeanes

O grosso da humanidade é tão bem preparada para pensar quanto para voar.
Jonathan Swift

Nunca tantos deveram tanto à tão poucos.
Sir Winston Churchill, comentando sobre o desempenho da RAF na Segunda Guerra, rechaçando a Luftwaffe

Não tenho medo de morrer num desastre aéreo... meu segredo é: um segundo antes de cair, é só pular o mais alto que você puder.
Bill Cosby

A teoria científica que mais me encanta é aquela que explica que os
anéis de Saturno são formados inteiramente por bagagens extraviadas.
Mark Russel

Ignorância é a maldição de Deus. Conhecimento é a asa com a qual voamos ao paraíso.
Shakespeare

Um aeroplano poderá desapontar qualquer piloto, mas nunca irá surpreender um bom piloto.
Len Morgan

O único momento em que um avião carrega combustível demais é quando ele está em chamas.
Charles Kingsford Smith

Nunca voe o modelo "A" de avião nenhum.
Edward Thompson

As emergências para as quais você treina raramente acontecem. A emergência para a qual você não treinou é a que pode matá-lo.
Ernest Gann

Eu aprendi que o perigo é relativamente pequeno, mas que a inexperiência pode funcionar como uma lupa.
Charles Lindbergh

Aeroplanos são quase perfeitos. Seu único defeito é a incapacidade de perdoar.
Richard Collins

Se morrermos, as pessoas precisarão aceitar isso. Nosso negócio é arriscado, e se algo acontecer conosco, espero que não atrase o programa espacial. A conquista do espaço vale o risco.
Virgil "Gus" Grissom, morto no incêndio da cápsula Apollo 7.

Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.
Neil Armstrong, assim que pisou na Lua, em 20 de julho de 1969.

Houston... Apollo 11. Tenho a Terra na minha escotilha!
Michael Collins

O espaço sideral não é distante. Ele ficaria a pouco mais de meia hora, se o seu carro pudesse andar na vertical.
Sir Fred Hoyle

As duas maneiras mais fáceis de perder dinheiro: uma empresa de aviação mal administrada e uma empresa de aviação bem administrada.
Gianfranco Beting

(Falando sobre mulheres na aviação) Acho ótimo. Finalmente hoje em dia é possivel a um comissário engravidar o piloto.
Richard Ferris, presidente da United Airlines

Nunca conheci uma indústria que entra na corrente sanguínea das  pessoas como a aviação.
Robert Six, presidente da Continental Airlines

Foi um lindo dia. O que mais eu posso dizer de uma jornada em que assisti quatro lindos pores-do-sol?
Astronauta John Glenn, 1962

Voar é a coisa mais excitante que você pode fazer usando calças.
Stephen Coonso

Aeronáutica não é uma ciência nem uma indústria. É um milagre.
Igor Sikorski

Por toda a minha vida, nunca consegui voar o quanto queria. Neste trabalho, pelo menos poderei voar todos os dias.
Robert "Hoot" Gibson, Ex-Comandante de quatro missões de Ônibus Espacial, aceitando o trabalho de co-piloto na Southwest

A única defesa apropriada é o ataque.
Vice-Marechal do Ar Johnnie Johnson, RAF.

Só há dois tipos de aviões: caças e alvos.
Doyle Nicholson, USMC

Flutue como uma borboleta, ataque como uma abelha.
Mohammed Ali

Brigue pra Voar, Voe pra Brigar, Brigue pra Ganhar.
Lema da escola de pilotos da US Navy, Top Gun.

Se os irmãos Wright estivessem vivos hoje, Wilber teria de demitir Oliver para cortar custos.
Herb Kelleher, ex-presidente da Southwest Airlines

Este é um negócio sujo, podre.
Robert Crandall, ex-presidente da American Airlines

Se nós tivéssemos entrado no ramo de funerais, as pessoas parariam de morrer.
Marty Shugrue, último presidente da Pan Am.

A Transbrasil nasceu transportando salsichas e morreu transportando laranjas.
Gianfranco Beting

Se Deus quisesse que nós voássemos, teria nos dado bilhetes.
Mel Brooks

Clássicos Clichês:
Numa cabine, se é vermelho ou empoeirado, não toque. Pra subir, puxe o manche. Pra cair, puxe mais forte.



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3. SPEECH POR ENGANO

Certa vez (agora posso contar, a companhia não existe mais...) um colega da VASP começou a fazer um speech ( Aquela narrativa de boas vindas aos passageiros, antes de decolar) para os passageiros, mas por engano estava falando na frequencia do centro Recife.
Falou MUITO! Recomendou restaurantes em Salvador. Recomendou Shoppings. Falou da ALTURA DAS ONDAS naquele dia!!! (era surfista) Congestionou a fonia por bem uns 5 minutos, num longuíssimo speech. Quando estava quase acabando, o copiloto notou, bateu no ombro dele (que ainda falava) e apontou para a caixa de áudio, fazendo o "capetão" notar seu erro. Mas, ele não se deu por vencido!!! Encerrou o "speech" dizendo: "...e é um prazer tê-los a bordo dessa aeronave da TAM!"
.
Claro que alguns colegas falaram na fonia, em resposta, coisas como: "Po***, só podia ser da TAM!!! Zé Mané, não bastava errar pista, ainda erra botão de caixa de áudio!!!"





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4. O COMANDANTE E A DECISÃO SOBRE QUAIS PANES ACEITAR

Como comandante, seja de um avião particular, taxi aéreo, linha aérea ou qualquer outro ramo da aviação, temos todo um universo de situações a serem gerenciados, antes, durante, e após cada vôo. Interagimos com colegas, usuários, chefia, máquinas. E um dos ítens que mais se sobressaem nesse gerenciamento é, como não poderia deixar de ser, a manutenção de nossas aeronaves. A manutenção é, também, uma das facetas da aviação mais desconhecidas dos usuários (que são, naturalmente, toda a razão de ser da aviação).

Pensam os usuários: -"Voar com uma aeronave em pane? Que perigo!"

Mas, como ocorre com nossos carros, há "panes e panes". A regra principal é jamais, sob hipótese alguma, colocar a segurança de vôo em risco.

Existe o manual entitulado "MEL - Minimum Equipment List" a bordo, editado pelo fabricante da aeronave. Alí, cada sistema da aeronave é analisada, e autoriza (ou não) o vôo da aeronave com sistemas em pane, ou mesmo faltantes. Sem, absolutamente, afetar a segurança. Por exemplo, uma aeronave pode ser despachada para o vôo sem faróis de pouso, desde que o vôo seja feito apenas durante o dia. Mesmo o mais leigo dos usuários vai concordar que não haveriam problemas nessa operação. Ou, situações mais complexas... Por exemplo, se temos 3 rádios VHF para comunicação, o MEL pode liberar para vôo com apenas 2 em funcionamento, e ainda dando prazo para sua correção. Ou ainda, liberar com apenas um em funcionamento, mas apenas para vôo diretamente para a base onde sofrerá manutenção. E o ítem pendente sempre cairá na lista intitulada "ACR - Ação Corretiva Retardada", com prazo para sua correção.

O MEL jamais poderá ser alterado pela empresa operadora da aeronave, com exceção de ADIÇÃO de ítens. Assim, o MEL personalizado de uma empresa JAMAIS poderá autorizar o vôo de uma aeronave com ítens pendentes não autorizados pelo Fabricante, mas muitas empresas que prezam intensamente pela segurança, podem, eventualmente, AUMENTAR essa lista de ítens imprescindíveis ao vôo, afastando-se assim ainda mais das margens de segurança, em direção à segurança total! Tenho a felicidade de trabalhar numa empresa assim! E, importantíssimo ressaltar, não cabe portanto ao comandante decidir "o que pode estar faltando" para seu vôo. Isso nos tira um enorme peso das costas! Mesmo porque, nossa especialidade é operar a aeronave, e muito embora muitos de nós tenhamos profundos conhecimentos de mecânica e do funcionamento de nossas aeronaves, isso é o que se chama de "nice to know", não sendo uma exigência. Portanto, o comandante não será o responsável por uma decisão na qual ele não é especialista.

Essa decisão é deixada à cargo do MEL, e portanto é deixada à cargo do fabricante da aeronave (editor do MEL), que é, sem sombra de dúvida, quem mais conhece sobre a aeronave em questão.

Infelizmente (nem tudo são rosas...), existem empresas que colocam o lucro acima da segurança, e forçam os aviadores a aceitarem ítens "no-go" (os ítens que o MEL cita como IMPRESCINDÍVEIS PARA O VÔO). São as empresas que encabeçam as listas de acidente. Fujam dessas empresas! De que vale a aeronave ter saído pontualmente no horário, se decolou com um ítem importante para a segurança de vôo faltando?

Portanto, um recado a todos os usuários: JAMAIS reclamem de um atraso devido a manutenção da aeronave onde irão voar! É sinal que a empresa preza a segurança, e antes de decidir lhes dar um vôo decolando pontualmente no horário, preferiu lhes dar um avião mecanicamente perfeito, que lhes levará com segurança ao seu destino, ao encontro de seus entes queridos!




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5. DEVANEIOS

Mais de meia hora após a decolagem, começa a amanhecer sobre a Amazônia... Estaremos hoje atravessando o Brasil de norte a sul, e o nosso bravo Fokker 100 (aliás, Fokker 28MK100, seu nome oficial de batismo) segue tranquilo, seu sensato automatismo trabalhando à nosso favor, as superfícies de comando docilmente compensando os movimentos das camadas de ar à nossa volta. Época boa de voar, e horário bom de voar! A chegada do astro-rei traz matizes interessantes à atmosfera... Primeiro vermelho, depois laranja... Bonito de ver, mas infelizmente é um fenômeno em grande parte devido às queimadas. Olho para baixo, o solo começa a ser visível com a claridade. Estranho, muitas pastagens, muitas plantações... Não deveria ser floresta aqui? Enfim...
A docilidade do automatismo não nos tira a responsabilidade do monitoramento, mas nos adoça a tarefa. Antigamente, um vôo de poucas horas era muito cansativo. Hoje, ficamos horas e horas no cockpit, e acabamos a jornada descansados. Importante principalmente para a segurança de vôo! Antes, a capacidade do aeronauta era diminuída no decorrer das horas, por cansaço, de forma muito mais nítida que hoje em dia. Hoje, mesmo com a responsabilidade do monitoramento, nos sobra tempo para pensar na vida... Mesmo porque, acostumados que estamos com a máquina, qualquer anormalidade, mesmo antes que aconteça, se torna fácil de ser percebida, nos salta aos olhos e aos outros sentidos... Com o tempo, "vestimos" a aeronave de tal forma que quase conversamos com ela, atentos à sinais, vibrações, ruídos, cheiros...
Quando aprendemos a linguagem da máquina, ela se torna ainda mais nossa amiga, e avisa antes de qualquer problema, basta que o aviador aprenda a compreendê-la. Claro, a aviação de antigamente era mais divertida, mas para trabalhar, a aviação atual é mais adequada. Um vôo de 737-200 era formidável, os dois motores com sobra de potência para o peso da aeronave se traduziam em sensações interessantíssimas! Falando nisso, cada aeronave tem sua personalidade, à espera de serem desbravadas pelo aviador que esteja interessado em aprender seus segredos e particularidades. Cada uma com sua característica, cada uma com seus prazeres e idiossincrasias a se demonstrar a seu "domador"...
E, nesses períodos de vôo em cruzeiro, com a docilidade do automatismo nos facilitando a tarefa do monitoramento, a mente viaja... Quanto tempo desde o início da aviação! Quantas dificuldades superadas, quantos obstáculos vencidos... Quantos colegas que ficou pelo caminho, desanimados pelas dificuldades, e quantos outros que perseveraram e venceram, ou estão ainda prestes a vencer, a conquistar seu lugar ao sol na aviação... Quanto tempo desde aquele mês de agosto de 1981, decolagem da pista de terra do interior do Rio Grande do Sul, manhã fria mas de céu claro, dia lindíssimo, naquele simpaticíssimo Neiva P56C, com 6 anos de idade a mais do que eu... Mesmo que eu fosse novo, pois naquela época as regras eram mais flexíveis, podia-se começar a voar muito cedo, mas a habilitação só podia ser conquistada aos 18 anos. Meu primeiro vôo solo foi com 14 anos... Hoje em dia, seria uma temeridade soltar um garoto de 14 anos solo num avião... Ou será que não?!?! O que mudou daquele tempo? Será que a responsabilidade era diferente? Será que encarávamos as tarefas com mais seriedade? Não sei! Talvez os adultos da época pudessem achar uma temeridade solar um garoto com apenas 14 anos, assim como eu, hoje adulto, pense assim sobre os garotos de hoje. É, cada vez mais pensamos como nossos pais, com o aumento da idade, como bem decretava a Elis Regina...
Mas, o fato foi que com 14 anos eu pilotei sozinho um avião pela primeira vez, e sei que o fiz com responsabilidade. E o longo caminho seguia... Ida para a capital, Porto Alegre, para o curso de piloto comercial, aí já com mais de 18 anos... Ida para o Rio de Janeiro, em busca de valores de horas de vôo acessíveis à mim, para a complementação do curso de vôo por instrumento e pilotagem de aeronaves multimotoras... Parece que foi no século passado e, engraçado, foi mesmo! Sou do tempo que quando se dizia "século passado", isso significava muito tempo. Hoje, comecinho do século XXI, esse modo de dizer perdeu o sentido...
E o Fokker segue em sua rota, fielmente guiado pelas duas plataformas inerciais, "cross-checando" dados automaticamente com os VOR que sintonizam também automaticamente as estações mais próximas, baseado na listagem de seu database. Muito diferente de antes! Minha primeira navegação baseou-se unicamente na bússola. De Novo Hamburgo a Caxias do Sul, Caxias do Sul a Torres, Torres a Osório, Osório à Novo Hamburgo... Até que não foi tão mal, os erros eram de poucos quilômetros. Quantitativamente inadmissível hoje em dia, mas totalmente natural para aquela época, e principalmente para aquela fase de instrução primária.
Anos depois, quando tive o especial privilégio de fazer parte da equipe do Airbus A300B2K da VASP, como copiloto, fazíamos de Brasília a Manaus noturno, só baseados também na bússola (ou, no caso, nos giros direcionais), pois não tínhamos equipamento Inercial, o Ômega havia acabado de ser desativado, as estações de ADF na rota eram esparsas e as de VOR raríssimas, e o GPS era não mais que uma possibilidade futura... E chegávamos lá, sempre, e com segurança... Fazíamos desvios para evitar formações meteorológicas, anotávamos o ângulo do desvio, o tempo de desvio, voltávamos então para uma proa para compensar o desvio pelo mesmo espaço de tempo, e quando em nossa navegação estimada havíamos voltado à rota, retomávamos a proa original.
Desde sempre, "proa é proa e tempo é tempo!" Me volta à mente a pergunta, o que mudou desde então? Hoje em dia, quando o aviador perde o GPS, "acaba o aviador"... Não sabem mais voar sem o auxílio da eletrônica de ponta embarcada em nossas aeronaves... Mas, os instrumentos básicos continuam lá! Horizonte artificial stand-by, velocímetro e altímetros com as velhas cápsulas aneróides iguais às de meu Neiva P-56C, e até a velha bússola, fiel desde sua invenção pelos chineses (e aprimorada pelos Navegantes Velejadores portugueses), estão todos lá, à disposição do aviador. Cabe à cada um a responsabilidade de se tornar "íntimo" desses instrumentos simples, mas que poderão ser a diferença entre sair ileso ou "virar manchete".
"DOING!" O Single Chine sonoro emitido pelo Warning Computer nos interrompe de nossos devaneios, e o MFDS - Multi Function Display System nos indica o "problema" (entre aspas por estar longe de ser um problema, é mais um evento): As bombas de combustível já transferiram todo o querosene que havia no tanque central (situado na fuselagem) para os tanques de asa, e ainda nos informa o procedimento a tomar: Desligar as bombas de transferência de combustível. Essas bombas são ligadas e desligadas por um push-botom no overhead panel, e está no alcance dos dois pilotos. É fácil para mim desligá-las, mas manda a regra que sendo eu, nessa etapa, o "pilot-flying", a ação deverá ser executada pelo "pilot-monitoring", à meu comando.
Quase em tom de brincadeira, eu comando a ação, dizendo "take actions!". O copiloto, boa-praça, também em tom de brincadeira, comenta que "comandante não faz nada, mesmo...". O ambiente é cordial, e ele na verdade sabe que existem os dois conceitos, o do Comandante e Copiloto, e o do Pilot-Flying (PF) e Pilot-Monitoring(PM) (antigamente era "pilot-not-flying", o "PNF"). O comandante e o copiloto são imutáveis a cada vôo, e é do comandante a responsabilidade pelo andamento do vôo, assim como a responsabilidade pelas consequências de eventuais problemas. Já quanto ao conceito Pilot-Flying/Pilot-Monitoring, isso normalmente (à critério do comandante) varia a cada etapa: um voa e o outro acessora, e na etapa seguinte muda. Aí, fosse o copiloto o "Pilot-Flying" daquela etapa, caberia à ele a ordem de "Take Actions" a ser executada pelo "Pilot-Monitoring" da etapa, que seria eu, o comandante.
Aliás, sobre cordialidade na cabine, isso é essencial para o bom andamento do vôo. Na imensa maioria das vezes, isso acontece. Mas, naturalmente, sempre existirão as incompatibilidades, e toda companhia sempre terá "um ou dois" mais complicados de trabalhar em harmonia, sejam comandantes ou copilotos. Ora, isso acontece em qualquer área profissional humana, nem cabe maiores comentários. Mas, é interessante como a aviação consegue juntar pessoas tão diferentes num cockpit... Cada vôo é sempre de aprendizado para comandante e copiloto, pois os assuntos são os mais variados, já que os tripulantes são das mais variadas origens. Diferentes pontos de vista, sonhos, vidas... Impressionante o que aprendemos sobre regiões diferentes daquela na qual crescemos, numa programação de poucos dias com um colega não-conterrâneo! E quantos assuntos, os mais variados possíveis, correm na cabine...
O Fokker prossegue em seus suaves movimentos, a tecnologia sendo nossa parceira... Penso que a única desvantagem da tecnologia foi ter eliminado a figura do engenheiro de vôo, ou mecânico de vôo, da cabine. Quem já voôu com "flight" (flight engineer) sabe do que estou falando!
Lá embaixo, mais de 10km abaixo, as pequenas localidades sobrevoadas começam a despertar. Será que estamos deixando esteira de condensação? Se estamos, quantas crianças não estarão agora, à caminho da escola, olhando para cima, pensando em, um dia, serem aviadores?!?! Isso é algo que seguidamente me ocorre. Chamo de "o privilégio de ser aviador"... Diferentemente de um garoto nos Estados Unidos (que comumente deseja ser bombeiro ou presidente), os garotos brasileiros, pelo menos em algum momento de suas vidas vão desejar ser pilotos (ou jogadores de futebol, mas isso é outra história...). Atravessando o país de norte a sul, quantas pessoas terão olhado para cima, desejando estarem aqui? Quantos sonhos alimentaremos hoje? Quantas pessoas teremos conseguido, em nossas carreiras, efetivamente ajudado a cumprir seus sonhos? À quantos milhões de pessoas teremos sido visíveis, por dia, se estamos deixando esteira de condensação? Quantos adolescentes que desejam ser pilotos estarão hoje nos ouvindo, na escuta da faixa aeronáutica do VHF, em radinhos caseiros? A aviação é sui-generis nisso... Apesar de ser sofisticada e cara durante o treinamento, é também muito seletiva quanto ao ESFORÇO PESSOAL necessário para sua conclusão.
Assim que muitos candidatos que trazem facilidades econômicas acabam desistindo durante o caminho, pela seletividade da carreira, pelo esforço pessoal de "perder baladas estudando", e por aí vai. E, do mesmo modo, pessoas de origem humilde, mas com grande força de vontade, acabam conseguindo superar suas carências econômicas, demoram mais tempo para conseguirem acabar seus cursos, mas, por manterem seus ideais bem altos, acabam por "chegarem lá". Aliás, é interessante notar que uma grande percentagem dos aviadores é de origem humilde. Os "filhinhos de papai", acostumados a ter tudo fácil, não resistem às exigências da aviação. Na última seleção de minha companhia, pelo que sei, haviam 2500 currículos para 10 vagas. Dos 10 pré-selecionados para as provas, 3 ficaram retidos na "peneira" das provas.
Então, para uma seletividade desse nível, superior à qualquer prova vestibular de qualquer curso de qualquer universidade brasileira, só "chegam lá" os que não tem medo do esforço! Pode demorar, mas se realmente querem, vão chegar lá! Naturalmente sem esquecer que nem só de aviação comercial se vivem os sonhos! Muitas vezes, o objetivo é outro... Aviação executiva, aviação militar, aviação especializada, instrução de vôo, etc.
E seguimos em nosso vôo. Já passamos da metade dessa etapa, e quanto já nos foi possível divagar... Planos futuros, lembranças passadas... E a terra vai passando, à cadência de 7 milhas náuticas por minuto, abaixo de nós.
Me vêm à mente trechos de Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach:

"E voôu através da nuvem e da tempestade,
por puro prazer,
enquanto o resto do bando se recolhia miseravelmente,
preso ao solo"

Longe de mim pensar isso com arrogância, como eventualmente pode parecer a algum leitor, numa leitura fora do contexto. Mas, o fato é que PRECISAMOS seguir nossos sonhos. Muitos não o fazem por cautela exagerada, por responsabilidades, por dificuldades intransponíveis, é certo. Mas, muitos também, é certo, não o fazem por medo do inexplorado, por receio de suas capacidades... Não só em relação à aviação, por certo! Tenho um amigo que, depois de trabalhar a vida toda num escritório, quando se aposentou vendeu todos seus bens, comprou um veleiro, e está a mais de 12 anos correndo mundo, com baixas despesas, tendo uma aposentadoria saudável e, sem dúvida, feliz! Por outro lado, conheço pessoas que tinham o mesmo sonho, mas não ousaram buscá-lo na aposentadoria. Cautela demais é mais prejudicial do que cautela de menos (sem generalizar quanto a isso, naturalmente. Algumas ações exigem cautela total!), e muitas vezes é bom tentar buscar nossos sonhos. Richard Bach também escreveu:

"Nunca nos dão um sonho
sem nos darem, também,
a capacidade de realizá-lo.
Você pode, porém, ter de
trabalhar duro por isso!"

E Mark Twain brilhantemente observou que

"Nunca deixe de sonhar!
Pois, se isso acontecer,
você continuará vivendo,
mas terá deixado de existir!"

Continuamos em rota. Algumas cidades maiores já aparecem. Não estamos mais com o "Centro Amazônico", agora estamos sob os cuidados do "Centro Brasília". Lamento que não seja mais permitido a visita à cabine. Malditos terroristas, que nos tiraram este prazer! Que alegria tive quando, com 10 anos, andei de avião pela primeira vez, e me foi autorizado a visita à cabine! Que mundo mágico se descortinou! Hoje temos que negar, frustrados, a visita de crianças... É, nosso mundo se complica, e as consequências são as mais diversas... Entendo os motivos e, mesmo chateado com isso, concordo com os motivos. Não que isso elimine minha frustração em ter de dizer "não" ao menino que pergunta, olhinhos brilhando, se pode conhecer "onde o piloto trabalha"... Frustrações assim nos exigem contrapontos, nos forçam a buscar a simplicidade de outrora.
Impressionante como é quase uma unanimidade entre os aviadores o desejo de morar no interior, ter uma vida mais pacata e simples em seus momentos de folga (e mesmo para depois, na aposentadoria), como contraponto à aviação! Alguns passatempos também se delineiam com mais frequência. Muitos aviadores velejam em seus momentos de folga. Eu, inclusive. Pois conduzir um barco à vela tem muito à ver com conduzir um avião (especialmente um planador!). A vela é um aerofólio, suas reações ao fluxo aerodinâmico são similares à asa de um avião. Exige-se sensibilidade semelhante, para adequadamente conduzir qualquer um dos dois veículos, mas no caso dos veleiros, não tem "pressa para fechar porta", não tem horário para cumprir (exceto nas regatas, mas minha intenção é só a parte bucólica da velejada, sem curtir regatas). E, pelo menos por enquanto, crianças podem se deslumbrar com o manuseio de veleiros. Creio que teremos mais candidatos a marinheiros no futuro, do que pilotos. Mais "marujos" do que "araújos", como se dizia, antigamente, de brincadeira. Acabou-se a inocência de outrora, hoje as crianças podem ser terroristas, e derrubar seu avião numa visita à cabine. Será mesmo?
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O ATIS já é audivel, e, copiado pelo copiloto, passa a nos gerar dados para o "Approach Preparation". Frequência e curso do ILS setados, setando também os demais auxílios, D.A., conferindo pesos, velocidades, elevações, combinando a execução do procedimento e da eventual arremetida com o colega, e tantos outros ítens a cumprir, começamos a nos preparar para, em algumas dezenas de minutos, estarmos de volta à terra firme, com a sensação de dever cumprido, concluído, mas nunca findado, pois muitas outras viagens virão... E o Fokker, fiel companheiro de mais essa jornada, mais do que uma simples máquina, e que tão bem nos cuidou nessa viagem, parece também estar ancioso para a próxima saída, e parece feliz por ter sido tão bem-tratado pela tripulação que, conhecendo-o bem, soube dar-lhe o devido valor!



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